Cinema 2025
A pirataria venceu, e Dario Argento finalmente entre os seus
Melani che parte con gli occhi celesti / Melani che arriva possente l’abbraccio / Il sindaco padre, i calanchi, Masaccio / Il corpo gigante, sdrucite le vesti / Cercava la luce, la vita, i quattrini / Per essere povero in mezzo ai bagordi / Melani era bello, son belli i ricordi / Son belli i suoi sogni: Godard, Rossellini / Melani Francesco giullare di Dio / Truffaut, Enzo Ungari, Nietzsche, Tati / La droga che lui non chiamava Julie / Melani era lì quando lì c’ero anch’io / Bernardo, Giuseppe, Via Giulia è una suite / Melani con Kim, Gianni Amico, i lacchezzi / Gabriella Cristiani, Vigo, Enrico Ghezzi / Il fumo, Melani zero de conduite / Melani half-dollar, la tela, il Pci / La notte, Silvana, la grazia, il dolore / Aprà, Samuel Fuller a Salsomaggiore / Melani è un peccato che non sia più qui
O ano cinematográfico de 2025 dentre os filmes vistos ao longo do ano:
Still (Ernie Gehr, 1971)
Il cavaliere di Maison Rouge (Vittorio Cottafavi, 1953)
Walk the Walk (Robert Kramer, 1996)
The Wild Palms (25 de novembro de 2025)
Star in the Dust (Charles F. Haas, 1956)
Kuolleet lehdet (Aki Kaurismäki, 2023)/The Cemetery of Sainte-Colombe (Flo Mavy, 2025)
Die Göttin vom Rio Beni/Mundo extraño (Franz Eichhorn, 1950)
Kuraudo (Kiyoshi Kurosawa, 2024)
Madamigella di Maupin (Mauro Bolognini, 1966)
Stories do Instagram do Carlos Cano
Les pieds dans les nuages (et la tête dans la lune) (Louis Skorecki, 1966)
Avanzi di galera (Vittorio Cottafavi, 1954)
Magma (Matheus Zenom, 2024-2025)
Tree Limbs (Flo Mavy, 2025)
Tom Clancy’s Without Remorse (Stefano Sollima, 2021)
Hell Is a City (Val Guest, 1960)
Encontro (Paula Negri, 2016)
Jean-Luc Godard à la Cinémathèque française (Raymond Depardon, 1985)
a Dream once lost among Sorrow and Song (Joseph Grimault, 2025)/Exercícios fílmicos nº 1 (Miguel Santos, 2025)/A Small Passage of Time (Flo Mavy, 2025)
Adagio (Stefano Sollima, 2023)
+ lançamento da Narrow Margin e o Prêmio Marco Melani para Dario Argento “em reconhecimento à sua carreira e impacto no cinema”.
No encerramento da sexta e última aula do curso “Mac Mahonismo: ontem e hoje”, em abril do ano passado, eu disse o seguinte:
Well, we're getting to the end.
What I want to say is this: the perspective that seems most interesting to me to adopt regarding Mac Mahonism is that of the absence of nostalgia.
Yes, Tavernier talks about long nighttime conversations in Paris after the last screening at Studio Parnasse, Nickel Odéon, or the Cinémathèque. The experience of cinema in relation to this scenario that Tavernier describes, that Skorecki describes in “Contre la nouvelle cinéphilie,” and that Lourcelles describes in the excerpt from “Anciens et modernes” isn’t ours.
Our experience with cinema was much more fragmented, much less centered, for example, on movie theaters and screenings, but no less impactful, no less decisive. It didn’t necessarily have fewer echoes, fewer communicating vessels, than the generation of cinephiles — using the term “cinephile” here to describe that generation that carried out this exploration of the first 50 years of cinema still in movie theaters and mainly through the programming work of Henri Langlois at the Cinémathèque Française.
The most interesting perspective to adopt regarding Mac Mahonism, in a way, is still this — speaking as people from a totally different generation, with different instruments and a very different repertoire from theirs. And that’s unchangeable.
But this absence of nostalgia that I’m talking about emerges in the continuity of us doing what was done in the era of television, home video, pirated tape exchanges, and later DVD exchanges, and then the exchanges of downloaded films.
And today, that’s what we’re doing here.
The films you watched for this course still carry a spirit of exchange, they still exist within a spirit of exchange.
With that being said, and arriving at the end of this class, at the end of this introduction, it was very good to be able to have these exchanges with you.
I thank you all once again.
Os trabalhos realizados hoje por revistas como Foco, Narrow Margin e Lumière são inconcebíveis – mesmo levando em consideração os trabalhos de programação em salas do Francisco Algarín Navarro e da equipe da Narrow Margin – sem a pirataria online.
Os dois acontecimentos cinematográficos mais importantes do ano passado – o vazamento na Internet de uma cópia digital de excelente qualidade de Still, a exibição de The Wild Palms no Institute of Contemporary Arts em Londres – são eventos ligados estreitamente à prática da pirataria.
Still (e, no começo do ano, os filmes do Markopoulos, os quais ainda não pude assistir) foi um típico exemplo de compartilhamento via pirataria online.
The Wild Palms só pôde existir contrabandeado numa forma de pirataria, uma vez que como objeto fílmico jamais existiu pelas mãos do próprio Godard. Trata-se da reorganização da montagem de dois filmes de Godard em um terceiro que como tal não pode ser outra coisa que uma hipótese de trabalho, uma proposta de programação de um filme que não pode existir oficialmente (direitos autorais, a própria ausência de ação do seu autor para tanto etc.).
A partir disso cabe dizer, 10 anos após Toni Erdmann ser transformado no evento cinematográfico do ano de seu lançamento, que a pirataria não é o futuro: ela é o presente, e já determina mais os caminhos do cinema no presente que o próprio circuito comercial, o próprio circuito dos festivais, quase tudo que ainda se liga de uma forma ou de outra ao âmbito institucional do cinema (há exceções, claro, como as atuações de Francisco Algarín Navarro, Narrow Margin, Soberano etc. nesse âmbito).
Essa batalha, portanto, já está ganha. O presente é da pirataria, vide esta declaração de Michael Eisner e a quantidade de listas de melhores filmes de 2025 que foram encabeçadas ou basicamente ocupadas por títulos de outras datas, títulos de filmes antigos que só chegaram ao alcance dos cinéfilos por causa do compartilhamento em rede, e principalmente por títulos que estão ligados ao experimental/estrutural/underground, os quais antes da pirataria online não tinham como ser vistos em outros ambientes que os das salas de exibição.
A pirataria venceu e é o presente porque está forçando a releitura, a reescrita, a reconsideração, a recomposição do cânone cinéfilo, que por mais de 70 anos manteve-se pautado pelo realismo narrativo, e em particular pelo seu viés baziniano.
Negar esse fenômeno neste momento corresponde a acreditar, em 2016, que Toni Erdmann era de fato o evento cinematográfico daquele ano.
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Falamos suficientemente do presente até aqui.
Duas coisas, portanto, que vale esperar para o futuro:
a superação desse estágio miseravelmente mercantil da política dos autores – o estágio Toni Erdmann-Albert Serra – pela pirataria (e, nesse sentido, o trabalho do Michael Witt com o Godard no Institute of Contemporary Arts em Londres, no dia 25 de novembro do ano passado, foi um passo importantíssimo, um gesto potente que pela sua própria existência introduz o questionamento da obsolescência do paradigma autoral);
o aprofundamento do conhecimento de outras cinematografias, outras filmografias de importância (a da Finlândia no primeiro caso e a do Teuvo Tulio no segundo), bem como e talvez principalmente do experimental que seguirá sendo propiciado pela pirataria.
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Caso esse interesse crescente pelo experimental e por outras formas mais híbridas, mais transversais do realismo narrativo desperta a sua curiosidade,
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