Com uma prenda: o texto do Rogério Sganzerla sobre o manifesto do Michel Mourlet (agradecimentos ao Ezequiel Silva).
Uma visão do cinema
Michel Mourlet, SUR UN ART IGNORÉ. La Table Ronde, Paris, 1965, 246 págs.
O crítico francês Michel Mourlet acha que o cinema é uma arte desconhecida. Principalmente pelos críticos. E neste livro tenta destruir certos valores consagrados, as posições acadêmicas. Mas não se trata, como avisa a contracapa, “de mais uma dessas estéticas em forma de paradoxos periodicamente inventadas por jovens em cólera, que não durarão mais de uma estação”. Mourlet não forja “uma” estética, não quer coerência nenhuma e voluntariamente se contradiz a cada capítulo. Mas o imprevisível é que no final das 200 páginas – na maioria já publicadas no Cahiers du cinéma – percebe-se uma visão pessoal e única do cinema. Uma crítica que é, ao mesmo tempo, criação; por conseguinte, invenção.
Depois de frisar mal-entendidos sobre o cinema, ele vai, de capítulo em capítulo, explicando que “le cinéma commence avec le parlant”; “qui tout est dans la mise en scène”; “que De Mille est supérieur à Hitchcock”; “qui la mise en scène est le monde sous le regard d’un homme cherchant la paix”.
O que é o cinema, segundo Michel Mourlet? “A arte da eleição da violência”, proveniente dos gestos do homem posto num décor. São os cineastas intuitivos – norte-americanos, principalmente – que captam os gestos humanos em toda sua verdade. “Il y faut une innocence et une virilité dans ces cinéastes rudes, qui détiennent le privilège”.
É preciso possuir o segredo, saber empregar cenários e atores; é necessária “aquela franqueza, aquela lealdade diante do corpo do ator que é o único enigma da mise en scène”. Foi tal empresa que Murnau e Griffith não puderam levar ao fim e Hawks, Hitchcock, Renoir, Rossellini, não fizeram mais do que prevê-la, sem controlá-la. Ela é “privilégio” de Losey, Preminger, Cottafavi e Lang – os grandes entre os grandes, segundo Mourlet. E ainda, em plano menor: Raoul Walsh, Fuller, Ludwig, Mizoguchi, Don Weis.
Quem chega a esta radical reapropriação dos primitivos encontra dois caminhos a seguir: o brechtiano e o não-brechtiano. Quer dizer, o distanciamento (cinema verdade, documentário) ou a aventura, o espetáculo puro. E nesta tendência que se dirige o crítico francês: “a verdadeira arte cinematográfica consiste em despojar o espectador de todas as distâncias, precipitando-o em um estado de hipnose, suspenso por uma acentuação de gestos, de olhares, de ínfimos movimentos do olhar e do corpo”. A absorção da consciência pelo espetáculo chama-se: fascinação, abolição do “eu”: diante de nós, um universo cujo destino é morrer. “Provocar tal tensão na tela – eis o projeto fundamental do cineasta.”
(O Estado de São Paulo, 6 de maio de 1967)
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